José Nobre Madeira- “Pretendem calar-me fazendo de mim um doente mental”
Há 20 anos ligado ao Hospital Santo Espírito, encara a demissão do cargo de Director do Serviço de Psiquiatria como uma manobra intimidatória. José Nobre Madeira, acredita que o afastamento está relacionado com as duras críticas que tem feito á instituição. O psiquiatra na última quarta-feira recebeu ordens do Tribunal para ser internado compulsivamente por incapaz
Sem rodeios, não retira uma vírgula do que disse á comunicação social sobre o conselho de Administração, que diz não ter perfil para desempenhar as funções. O médico acrescenta que a tutela não sabe mandar e está ao sabor de um telefonema do Presidente do Governo.

A União: Como é que encarou o afastamento do cargo de Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Angra do Heroísmo?
José Madeira: Não encarei isso como se fosse uma tragédia. Percebi que era uma manobra intimidatória. Aliás contactei de imediato com o Gabinete Jurídico da Ordem do Médicos, na pessoa de Paulo Sanches e ele foi peremptório. Disse-me que esta atitude é tomada porque é a maneira mais rápida de intimidar uma pessoa demiti-la do serviço, usando argumentos que nem é preciso serem válidos. E acho que provavelmente irei ter um processo disciplinar por ter dado essa entrevista à rádio sem autorização. Mas como é mais moroso usa-se ser demitido do cargo de Director do Serviço.
A União: Entende isto como uma represália, depois das críticas que dirigiu ao Conselho de Administração deste Hospital, e tornadas públicas?
J.M.: Depois disso recebi uma nota intimidatória que não me permite fazer as doze horas de urgência hospitalar. Mais, na quarta-feira passada recebi uma intimidação para ir a uma entrevista médica, para ser internado compulsivamente contra a minha vontade, por ser incapaz por loucura, com argumentos perfeitamente ridículos. Desde assuntos da minha vida privada, com as mais rematadas mentiras. Eu já falei para o gabinete jurídico e é evidente que os meus advogados irão dar resposta adequada a uma situação destas. Chegamos a um ponto que pretendem calar-me, fazendo de mim um doente mental. É o cúmulo a que se pode chegar. É de pessoas que estão desorientadas, em pânico e não têm o mínimo de argumentos. Eu sei que aparentemente pode não ser visível, mas é a minha própria vida que está em risco. Daqui a seis meses ou um ano ou mais, pode haver um ajuste de contas pelas pessoas que tem poder.
A União: Há fundamento para se dizer, como foi dito na Assembleia Regional, que existe uma caça às bruxas nesta unidade?
J. M.: É mais do que isso. Aquilo que se passa é que existem conexões regionais e nacionais poderosas, como o grupo Espírito Santo e o grupo Bensaúde, que estão desejosos em calar uma voz que só disse que o rei ia nu. E o rei vai nu, não é só a nível da região, é também a nível nacional. Como eu já disse, o actual Ministro da Saúde, que tem feito alguma coisa e tem tentado mexer, também tem culpas da situação actual.
A União: Neste Hospital tem conhecimento de outras pessoas que se sentem perseguidas?
J. M.: Não, porque eu agora sou o bode expiatório. Querem fazer tudo o que é possível para me intimidar e calar, depois também serve para calar os outros. É lógico. Se me conseguirem calar, se conseguirem destruir-me, todos os outros que até concordam em parte comigo, e têm medo, vão calar-se.
A União: Como é que viu a atitude do Conselho da Administração ao demiti-lo por telefone?
J. M.: Eu já disse que as pessoas que estão no Conselho de Administração não têm postura par ocupar os cargos. Não têm perfil científico, cultural e humano, não estudaram para estar lá. São bons médicos. Mas não para exercer funções de chefia, nunca pensaram, nunca reflectiram sobre estas questões. O poder foi-lhes outorgado, mas eles naturalmente não mandam, são paus mandados de quem quer. O Dr. Gregório, é uma pessoa que já não está no Hospital e ainda manda. No dia em que eu estava a falar com a Directora Clínica a discutir o plano de actividades, ele entrou, interrompe a nossa conversa para falar com ela sobre a entrevista que ela tinha dado, com se fosse, digamos, o professor. O Dr. Gregório não está sozinho, tem ramificações familiares ao actual Ministro da Saúde e à Universidade de Coimbra (Dr Pio de Abreu, seu colega de curso).
A União: Pode dizer-se que existem facções dentro do Hospital de Angra?
J. M.: Pois é evidente que há. Mas eu como não estou ligado a nenhuma facção, sigo a minha consciência e vontade, não quer dizer que esteja sozinho, eu sei que há muitos que concordam comigo. Sei que há uma grande parte da população que concorda e sabe que eu não estou a mentir. Nem estou a usar isto para proveito próprio.
A União: Vive-se uma censura dentro da unidade?
J. M.: Não, é pior do que isso! Vive-se medo. As pessoas têm medo de falar, de serem perseguidas, como está a ser o José Madeira.
A União: O que é que contesta no estado actual do Hospital?
J. M.: É o clima a que se chegou. O medo, a falta de objectivos. Porque é que passado um ano e tal não houve obras na Urgência, por exemplo? E é só um exemplo. A Urgência é uma coisa sensível, que eu acho que é muito importante. É uma sala de entrada, digamos a sala de visitas do Hospital. E não houve obras por falta de vontade política. Porque há muita pressa em fazer um hospital novo e não há vontade de remendar aquilo que tem que ser remendado.
A União: Acha que há mesmo necessidade de um hospital novo?
J. M.: Acho que há necessidade de um hospital novo mas não deve ser feito com pressa. Não podemos ir atrás da vontade de querer fazer uma coisa em cima no joelho só para fazer a vontade do poder político deste país. Até lá, alguma coisa tem que se feita. A estrutura física da Urgência é uma dor de alma. Uma pessoa que está aqui de férias, do estrangeiro, vai aquele local, fica com uma ideia que não é a ideia da ilha nem da região.
A União: Como é que vê a postura da tutela face à polémica que se gerou à volta do Hospital de Angra?
J. M.: A tutela é responsável, não sabe mandar, não tem poder, não tem saber e está ao sabor do que lhes dizem ou o Dr. Gregório ou o Dr. Rosa ou o Presidente do Governo Regional com um telefonema. Ou ainda outras pessoas, que não tendo poder concreto, têm uma carga de influência muito grande. São amizades de longa duração, são as pessoas que não têm uma visão ampla sobre o que é saúde hospitalar e há um divórcio entre a realidade de ilha e o Hospital. As pessoas pensam que isto está tudo muito bem porque está tudo muito bem entre eles, enquanto não falam com a população.
A União: Partilha da opinião do Presidente do Conselho Regional da Ordem dos Médicos de que o Serviço regional de Saúde está em crise?
J. M.: Há uma crise da Saúde em Portugal e que tem a ver com: a falta de reestruturação dos cuidados primários, com uma hipertrofia dos cuidados hospitalares, com utentes que não tem médico de família. E as culpas dessa crise são amplas. A classe política, a Ordem dos Médicos, as Universidades, ninguém quer assumir. É por isso que chegar a estas estruturas provoca muitas fricções. E ficam com medo do povo.
A União: As auditorias instauradas aos hospitais da Região vão ser consequentes?
J. M.: Não vão levar a lado nenhum. As auditorias, quanto a mim, são para intimidar o Hospital de Angra. Não vão levar a lado nenhum porque não vão dizer a verdade toda. Não vão levar a lado nenhum porque nenhum governo quer que se saiba que há uma certa promiscuidade de poderes dentro e fora do hospital.
A União: O caso da Carla, que faleceu de pneumonia hemorrágica, foi o que despoletou a série de críticas ao Hospital? Como comenta?
J. M.: O caso da Carla terá sido a gota de água. Na situação concreta da Carla, por aquilo que eu conheço da pneumonia hemorrágica, até não terá havido negligência médica. Porque são situações que é preciso ter sorte. Se nós somos atendidos por um médico mais experiente, é-nos detectado mais rapidamente a doença; se é um médico inexperiente, naturalmente nós vamos ser penalizados por isso.
A União: Mas perante a dimensão que o caso tomou, acha que o Conselho de Administração devia ter-se demitido?
J. M.: Eu não digo que a Administração se devia ter demitido por esse facto, agora não deviam era ter feito aquela reunião caricata, onde eu estive presente, com uma prestação patética da Dra. Olga. Eu nunca cheguei a perceber o objectivo daquela reunião, se era de auto desculpa, ou se era porque se estava com medo de extravasar para fora do Hospital aquilo que se passava. E eu chamei a atenção de que muito do que se passava lá dentro não eram só os doentes que levavam para fora, eram os médicos que contavam fora do hospital.
A União: Até que ponto o caso da Carla serviu para a opinião pública mostrar o desagrado pela prestação dos serviços de saúde nesta unidade?
J. M.: Foi uma coisa histórica e original. Eu escrevi ao Bastonário da Ordem dos Médicos e convidei-o a vir à Terceira e falar com a população. Eu não sei se o Bastonário sabe concretamente que existiu uma manifestação contra a negligência médica. Ele se calhar não sabe que existe um divórcio enorme entre a população e o Hospital. E esta é uma Unidade que gasta muito dinheiro com os vencimentos dos médicos, mais talvez do que a media do país, e compreende-se de certa forma. Eu disse ao Bastonário para vir cá, ler os jornais regionais e falar com a população antes de falar com os médicos.
A União: Como é que vê a polémica dos regimes de prevenção?
J. M.: Isso é uma falta de exercício de poder da tutela. O que eu digo é que há médicos que estão de prevenção e que têm tempo para andar de barco a velejar. E isso porque à minha frente houve um médico que telefonou para outro, e eu perguntei: -Onde é que ele está? E ele respondeu-me: - está a andar de barco. E ele estava de prevenção! A Dra. Olga permite uma coisa destas, a directora clínica permite. Porquê? Porque há uma promiscuidade. Tu dizes que sim comigo, dizes que a Administração pode continuar e eu deixo fazer aquilo que tu queres.
A União: Nestes moldes, justifica-se a existência de um serviço público de saúde?
J. M.: O serviço público tem que ser reformulado, não pode ser com estes gastos, com esta irracionalidade de gestão. Tem que ser pago consoante as capacidades de cada um, tem que ser pago justamente. As pessoas têm que ser educadas para a saúde, tem que haver outra cultura cívica. Os utentes têm que pedir o livro de reclamações mais cedo, sem terem medo de serem intimidados. Mas também não é por aí que vão andar sempre a dizer mal do Hospital. Este é um problema cultural que inclui a maneira como a classe médica se situa na própria sociedade, que é uma forma, quanto a mim, errada. A maneira como a classe médica é vista pela sociedade é também deturpada, para o bem e para o mal. D.S.

A União: Como é que encarou o afastamento do cargo de Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Angra do Heroísmo?
José Madeira: Não encarei isso como se fosse uma tragédia. Percebi que era uma manobra intimidatória. Aliás contactei de imediato com o Gabinete Jurídico da Ordem do Médicos, na pessoa de Paulo Sanches e ele foi peremptório. Disse-me que esta atitude é tomada porque é a maneira mais rápida de intimidar uma pessoa demiti-la do serviço, usando argumentos que nem é preciso serem válidos. E acho que provavelmente irei ter um processo disciplinar por ter dado essa entrevista à rádio sem autorização. Mas como é mais moroso usa-se ser demitido do cargo de Director do Serviço.
A União: Entende isto como uma represália, depois das críticas que dirigiu ao Conselho de Administração deste Hospital, e tornadas públicas?
J.M.: Depois disso recebi uma nota intimidatória que não me permite fazer as doze horas de urgência hospitalar. Mais, na quarta-feira passada recebi uma intimidação para ir a uma entrevista médica, para ser internado compulsivamente contra a minha vontade, por ser incapaz por loucura, com argumentos perfeitamente ridículos. Desde assuntos da minha vida privada, com as mais rematadas mentiras. Eu já falei para o gabinete jurídico e é evidente que os meus advogados irão dar resposta adequada a uma situação destas. Chegamos a um ponto que pretendem calar-me, fazendo de mim um doente mental. É o cúmulo a que se pode chegar. É de pessoas que estão desorientadas, em pânico e não têm o mínimo de argumentos. Eu sei que aparentemente pode não ser visível, mas é a minha própria vida que está em risco. Daqui a seis meses ou um ano ou mais, pode haver um ajuste de contas pelas pessoas que tem poder.
A União: Há fundamento para se dizer, como foi dito na Assembleia Regional, que existe uma caça às bruxas nesta unidade?
J. M.: É mais do que isso. Aquilo que se passa é que existem conexões regionais e nacionais poderosas, como o grupo Espírito Santo e o grupo Bensaúde, que estão desejosos em calar uma voz que só disse que o rei ia nu. E o rei vai nu, não é só a nível da região, é também a nível nacional. Como eu já disse, o actual Ministro da Saúde, que tem feito alguma coisa e tem tentado mexer, também tem culpas da situação actual.
A União: Neste Hospital tem conhecimento de outras pessoas que se sentem perseguidas?
J. M.: Não, porque eu agora sou o bode expiatório. Querem fazer tudo o que é possível para me intimidar e calar, depois também serve para calar os outros. É lógico. Se me conseguirem calar, se conseguirem destruir-me, todos os outros que até concordam em parte comigo, e têm medo, vão calar-se.
A União: Como é que viu a atitude do Conselho da Administração ao demiti-lo por telefone?
J. M.: Eu já disse que as pessoas que estão no Conselho de Administração não têm postura par ocupar os cargos. Não têm perfil científico, cultural e humano, não estudaram para estar lá. São bons médicos. Mas não para exercer funções de chefia, nunca pensaram, nunca reflectiram sobre estas questões. O poder foi-lhes outorgado, mas eles naturalmente não mandam, são paus mandados de quem quer. O Dr. Gregório, é uma pessoa que já não está no Hospital e ainda manda. No dia em que eu estava a falar com a Directora Clínica a discutir o plano de actividades, ele entrou, interrompe a nossa conversa para falar com ela sobre a entrevista que ela tinha dado, com se fosse, digamos, o professor. O Dr. Gregório não está sozinho, tem ramificações familiares ao actual Ministro da Saúde e à Universidade de Coimbra (Dr Pio de Abreu, seu colega de curso).
A União: Pode dizer-se que existem facções dentro do Hospital de Angra?
J. M.: Pois é evidente que há. Mas eu como não estou ligado a nenhuma facção, sigo a minha consciência e vontade, não quer dizer que esteja sozinho, eu sei que há muitos que concordam comigo. Sei que há uma grande parte da população que concorda e sabe que eu não estou a mentir. Nem estou a usar isto para proveito próprio.
A União: Vive-se uma censura dentro da unidade?
J. M.: Não, é pior do que isso! Vive-se medo. As pessoas têm medo de falar, de serem perseguidas, como está a ser o José Madeira.
A União: O que é que contesta no estado actual do Hospital?
J. M.: É o clima a que se chegou. O medo, a falta de objectivos. Porque é que passado um ano e tal não houve obras na Urgência, por exemplo? E é só um exemplo. A Urgência é uma coisa sensível, que eu acho que é muito importante. É uma sala de entrada, digamos a sala de visitas do Hospital. E não houve obras por falta de vontade política. Porque há muita pressa em fazer um hospital novo e não há vontade de remendar aquilo que tem que ser remendado.
A União: Acha que há mesmo necessidade de um hospital novo?
J. M.: Acho que há necessidade de um hospital novo mas não deve ser feito com pressa. Não podemos ir atrás da vontade de querer fazer uma coisa em cima no joelho só para fazer a vontade do poder político deste país. Até lá, alguma coisa tem que se feita. A estrutura física da Urgência é uma dor de alma. Uma pessoa que está aqui de férias, do estrangeiro, vai aquele local, fica com uma ideia que não é a ideia da ilha nem da região.
A União: Como é que vê a postura da tutela face à polémica que se gerou à volta do Hospital de Angra?
J. M.: A tutela é responsável, não sabe mandar, não tem poder, não tem saber e está ao sabor do que lhes dizem ou o Dr. Gregório ou o Dr. Rosa ou o Presidente do Governo Regional com um telefonema. Ou ainda outras pessoas, que não tendo poder concreto, têm uma carga de influência muito grande. São amizades de longa duração, são as pessoas que não têm uma visão ampla sobre o que é saúde hospitalar e há um divórcio entre a realidade de ilha e o Hospital. As pessoas pensam que isto está tudo muito bem porque está tudo muito bem entre eles, enquanto não falam com a população.
A União: Partilha da opinião do Presidente do Conselho Regional da Ordem dos Médicos de que o Serviço regional de Saúde está em crise?
J. M.: Há uma crise da Saúde em Portugal e que tem a ver com: a falta de reestruturação dos cuidados primários, com uma hipertrofia dos cuidados hospitalares, com utentes que não tem médico de família. E as culpas dessa crise são amplas. A classe política, a Ordem dos Médicos, as Universidades, ninguém quer assumir. É por isso que chegar a estas estruturas provoca muitas fricções. E ficam com medo do povo.
A União: As auditorias instauradas aos hospitais da Região vão ser consequentes?
J. M.: Não vão levar a lado nenhum. As auditorias, quanto a mim, são para intimidar o Hospital de Angra. Não vão levar a lado nenhum porque não vão dizer a verdade toda. Não vão levar a lado nenhum porque nenhum governo quer que se saiba que há uma certa promiscuidade de poderes dentro e fora do hospital.
A União: O caso da Carla, que faleceu de pneumonia hemorrágica, foi o que despoletou a série de críticas ao Hospital? Como comenta?
J. M.: O caso da Carla terá sido a gota de água. Na situação concreta da Carla, por aquilo que eu conheço da pneumonia hemorrágica, até não terá havido negligência médica. Porque são situações que é preciso ter sorte. Se nós somos atendidos por um médico mais experiente, é-nos detectado mais rapidamente a doença; se é um médico inexperiente, naturalmente nós vamos ser penalizados por isso.
A União: Mas perante a dimensão que o caso tomou, acha que o Conselho de Administração devia ter-se demitido?
J. M.: Eu não digo que a Administração se devia ter demitido por esse facto, agora não deviam era ter feito aquela reunião caricata, onde eu estive presente, com uma prestação patética da Dra. Olga. Eu nunca cheguei a perceber o objectivo daquela reunião, se era de auto desculpa, ou se era porque se estava com medo de extravasar para fora do Hospital aquilo que se passava. E eu chamei a atenção de que muito do que se passava lá dentro não eram só os doentes que levavam para fora, eram os médicos que contavam fora do hospital.
A União: Até que ponto o caso da Carla serviu para a opinião pública mostrar o desagrado pela prestação dos serviços de saúde nesta unidade?
J. M.: Foi uma coisa histórica e original. Eu escrevi ao Bastonário da Ordem dos Médicos e convidei-o a vir à Terceira e falar com a população. Eu não sei se o Bastonário sabe concretamente que existiu uma manifestação contra a negligência médica. Ele se calhar não sabe que existe um divórcio enorme entre a população e o Hospital. E esta é uma Unidade que gasta muito dinheiro com os vencimentos dos médicos, mais talvez do que a media do país, e compreende-se de certa forma. Eu disse ao Bastonário para vir cá, ler os jornais regionais e falar com a população antes de falar com os médicos.
A União: Como é que vê a polémica dos regimes de prevenção?
J. M.: Isso é uma falta de exercício de poder da tutela. O que eu digo é que há médicos que estão de prevenção e que têm tempo para andar de barco a velejar. E isso porque à minha frente houve um médico que telefonou para outro, e eu perguntei: -Onde é que ele está? E ele respondeu-me: - está a andar de barco. E ele estava de prevenção! A Dra. Olga permite uma coisa destas, a directora clínica permite. Porquê? Porque há uma promiscuidade. Tu dizes que sim comigo, dizes que a Administração pode continuar e eu deixo fazer aquilo que tu queres.
A União: Nestes moldes, justifica-se a existência de um serviço público de saúde?
J. M.: O serviço público tem que ser reformulado, não pode ser com estes gastos, com esta irracionalidade de gestão. Tem que ser pago consoante as capacidades de cada um, tem que ser pago justamente. As pessoas têm que ser educadas para a saúde, tem que haver outra cultura cívica. Os utentes têm que pedir o livro de reclamações mais cedo, sem terem medo de serem intimidados. Mas também não é por aí que vão andar sempre a dizer mal do Hospital. Este é um problema cultural que inclui a maneira como a classe médica se situa na própria sociedade, que é uma forma, quanto a mim, errada. A maneira como a classe médica é vista pela sociedade é também deturpada, para o bem e para o mal. D.S.
+ Informações:
Fonte: A Uniao
Data: 2006-06-19 09:48:51
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