Veraçor
Francisco Costa líder da AFAH - «Era um contra-senso ameaçarem com a recusa em jogar»
A posição de força assumida por alguns clubes continentais de que se recusariam a jogar nos Açores sem apoios financeiros para as viagens aéreas nunca teria pernas para andar, porque as multas por falta de comparência seriam mais caras que os subsídios concedidos. Esta é a opinião de Francisco Costa, que, em entrevista à A UNIÃO, fala ainda da possibilidade da Série Açores passar a ter 12 equipas e da situação actual dos regionais, nomeadamente, a crise em São Jorge.


Como está o processo das passagens aéreas das equipas do Continente?

Ao que sei, a Federação está a tratar disso junto do IDP [Instituto do Desporto de Portugal] e das Finanças. Não tenho informação de novos desenvolvimentos, mas se as equipas do Continente decidiram vir jogar, é porque alguma coisa se resolveu. Em termos regulamentares, era complicado os clubes cumprirem o que estavam a dizer. O valor atribuído para cada viagem eram 1500 euros e só a multa por falta de comparência eram 2500 euros. Era um contra-senso ameaçarem com a recusa em jogar, porque isso sairia mais caro. Além de que só se podem dar duas faltas e à terceira o clube é excluído das competições. E se a falta for nas últimas três jornadas, a equipa é relegada para a última competição nacional.

Considera então descabidas as ameaças que foram feitas?

Não fazem sentido nenhum. Não se poderia recorrer à falta de comparência pelas consequências que isso teria. Depois, os clubes não podiam apelar à solidariedade de todas as associações, como fizeram, porque quando foram os Açores a pedir essa solidariedade, as associações disseram até amanhã e não temos nada com isso.

Não é injusto que a Federação pague as passagens aos clubes do Continente e não faça o mesmo nos Açores?

Isso está relacionado com a lei nacional e com a nossa autonomia financeira e administrativa. Tal como noutras deslocações para o Continente, também no desporto cabe à região assegurar o apoio público para as viagens. Além de que, quando um clube do Continente recebe 1500 euros para viagens e estadias, dinheiro que vem através do IDP, também os clubes dos Açores recebem uma quantia idêntica, além de terem as viagens e a estadia pagas pelo Governo regional.

Quer dizer que, indirectamente, os clubes açorianos ficam prejudicados se os apoios às viagens dos clubes continentais acabarem?

Não sei se ficam prejudicados ou não. Todo o dinheiro que vem dá sempre jeito, mas não sei se usaria o termo prejudicar. Como os clubes açorianos tem um apoio complementar às passagens aéreas, destinado a estadia e viagens terrestres, não ficam tão prejudicados como as do Continente. Sempre são 65 euros por pessoa vezes dois dias.

Em termos competitivos, o futebol açoriano sai prejudicado com questões como a limitação de três equipas na II Divisão e a disputa de liguilhas?

Até hoje isso só aconteceu duas vezes... Temos de ver isto de uma forma global. Tenho uma opinião muito particular sobre esta matéria, que não é o que pensam a maior parte dos clubes. Não podíamos querer as mesmas condições se o nosso campeonato era disputado por 10 equipas e os clubes continentais disputavam provas com 18 equipas, num contexto muito mais competitivo. Agora, à medida que isto se for alterando, poderemos ser mais reivindicativos. Já se prevê que daqui a um ano ou dois a Federação coloque todas as séries da III Divisão com 12 equipas. Se o nosso campeonato também passar para 12 clubes, ficaremos na mesma situação que os clubes do Continente e teremos muito mais força para exigir um tratamento igual para os Açores. Mas isso carece do apoio do Governo. Quando foi disputada a primeira liguilha, só podiam estar duas equipas açorianas na II Divisão. Fomos nós que conseguimos alterar isso, para passarem a ser três clubes. Quem criou essa limitação fomos nós. Não vale a pena estar a falar que foi este ou aquele, mas foram os açorianos que criaram a série Açores. Aceitámos essa regulamentação e agora temos é que trabalhar para nos equipararmos às competições do Continente. Não nos podemos armar em coitadinhos.

Não pude deixar de reparar que limitou o sucesso dessas alterações ao apoio do Governo Regional. Esse apoio está garantido?

Não, não está. O que o director regional da tutela tem dito é pura demagogia. Não vale a pena andar a atirar a responsabilidade para cima de outros. O que nós queremos é um documento do Governo a dizer que suporta a Série Açores com 12 clubes, num esquema de todos contra todos, disputando-se uma segunda fase com os primeiros seis classificados e com os seis últimos. Se tivermos essas condições, avançamos com uma proposta na Federação para adoptar um campeonato regional com 12 equipas e acabar com a actual liguilha. Mas sem a garantia do Governo, não vale sequer a pena fazer a proposta se depois a prova não tem suporte financeiro.

As mudanças deviam ficar por aí?

Há uma série de alterações às leis que apoiam os clubes que são necessárias para não se gastar verbas em coisas que não revertem para nada. Estamos à espera que nos digam o que vão fazer, mas podia ser dado um jeitinho à lei dos jogadores, que continua a ter muitas abertas. Está previsto 30% de apoios complementares (majorações) se as equipas tiverem 50% de jogadores da região. Mas isso ainda permite aos clubes terem nove jogadores continentais, o que é demasiado. Com um número mais limitativo, haveria sempre alguns clubes que ultrapassariam o limite e se o Governo cortar nesse aspecto fica com dinheiro para outras coisas. E se a torneira está a apertar nos regionais, é natural que isso também comece a acontecer na III Divisão. Além de que não faz sentido os clubes andarem a formar jogadores e isso depois não ter continuidade. Paga-se aos clubes para formarem atletas e gasta-se dinheiro em jogadores de fora. Isso não me parece uma boa política.



Falou na questão da formação. Porque é que os jogadores açorianos não aparecem tanto como os de outras regiões?

Isso tem a ver com a política de formação dos clubes. Além de que tive oportunidade de ver o projecto que está implementado na Madeira, que não tem nada a ver com o nosso. E eles têm a vantagem de ter um território contíguo, coisa que nós não temos. Mas tem-se verificado alguns atletas de cá que até são convocados para as selecções jovens. Houve um miúdo que só não continuou por culpa da equipa técnica. Temos um jogador aqui de Angra que foi ao Porto; outro de São Jorge que está a treinar no Benfica.

Temos tido conhecimento de alguns jogadores que vão para o Continente e se recuarmos no tempo temos exemplos como o Armando ou o Tiquilha. Claro que nem todos têm a sorte ou a qualidade do Pauleta e não chegam tanto a clubes de topo. Mas também uma mistura dessas duas coisas como no caso dele não acontece todos os dias. Não são tantos como queríamos, mas vão existindo alguns casos.

Quanto aos regionais, estes estão numa situação complicada com cada vez menos equipas. E agora o problema em São Jorge...

A minha opinião é ao contrário. O crescimento não tem sido o pretendido, mas já fizémos competições com quatro equipas e este ano temos sete, quando no ano passado eram seis. Temos aumentado o número de equipas gradualmente. Também não interessa os clubes estarem todos a entrar e depois não terem capacidade humana e financeira para se aguantarem e desistirem a meio do campeonato. A nossa política de apoios tem sido no sentido de alterar isso. Custa muito menos agora jogar pela associação do que antes e agora os nossos incentivos já começam a chegar aos séniores.

Penso que isso tem contribuído para aparecer um ou outro clube interessado em inscrever uma equipa sénior. Quanto a São Jorge, o que se está a passar é um problema muito grave. Mais um, menos um clube é uma coisa que conseguimos resolver, mas esta questão não temos a certeza de conseguir ultrapassá-la. Temos sim a certeza de que não se trata de um problema estrutural, nem competitivo, mas sim de uma questão que os clubes têm dificuldade em ultrapassar. Acaba por ser uma rivalidade tacanha que tem de acabar. Quando assim for em tudo, de certeza que vamos ser melhores.

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Fonte: www.auniao.com
Autor: João Moniz
Data: 2006-09-11 11:16:13
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