Lagoas não se transformarão em pântanos, diz Helena Calado da UAç
Helena Calado, Professora do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, é de opinião que a revitalização das lagoas das Sete Cidades e das Furnas vai levar anos, mas mesmo assim acredita que, com as medidas que estão a ser tomadas, as lagoas não se transformarão em pântanos.
Devido ao processo de eutrofização das lagoas micaelenses, a Região dispõe de legislação adaptada…
Helena Calado – Foi um processo que surgiu quando foi adaptada à Região a Lei de Bases do Ordenamento do Território e do Urbanismo e o seu regime jurídico. Nessa altura foi feita uma parceria entre a Universidade dos Açores e o Governo Regional, em que foi feita uma proposta de adaptação do regime que vigorava – e vigora ainda – para as albufeiras classificadas no continente para que esta legislação fosse adaptada nos Açores para planos de desenvolvimento das bacias hidrográficas de lagoas classificadas.
DA - Qual era o grande mérito desta adaptação?
H.C. - Eram planos que tinham como preocupação base a qualidade da água e, por outro lado, não tendo nós albufeiras não ficávamos privados do instrumento de gestão territorial que existe no continente, que na Região não havia por força de não existir essa formação geomorfológica. Essa adaptação foi logo preparada quando foi feita a adaptação do regime jurídico de gestão territorial, sendo que depois foram lançados os concursos públicos e feitos os planos de ordenamento, aprovados e publicados em 2005 em Diário da República e no Jornal Oficial. Neste momento, os planos estão a ser implementados.
A grande oportunidade que houve foi a de fazer no mesmo diploma a classificação da lagoa e a sua regulamentação. Portanto, criou-se uma oportunidade que não existe nas albufeiras, isto é, a albufeira é classificada e depois regulamentada. Aqui não, é tudo feito concomitantemente. Assim, temos as duas lagoas – Furnas e Sete Cidades –classificadas e regulamentadas. Essa foi uma oportunidade criada nos Açores por não haver legislação e que nós [Universidade e Governo] soubemos aproveitar.
DA – Depois da regulamentação, agora o que vai acontecer às lagoas?
H.C. - Nas Sete Cidades, que é o caso que eu conheço melhor, as medidas propostas tinham duas vertentes: preventivas e curativas.
As medidas preventivas levam muito mais tempo a implementar do que as curativas, ou seja, se as medidas curativas relativamente fáceis que recaiam na construção da vala (que já foi feita) e em algum tipo de medidas físicas- embora exijam algum investimento monetário e força de trabalho braçal e de engenharia -, como a apanha das plantas existentes no plano interior de água da lagoa, as outras medidas são muito mais difíceis de concretizar.
DA – Qual é a grande estratégia?
H.C. - Posso dizer que a grande estratégia para a bacia hidrográfica da Lagoa das Sete Cidades é o repovoamento florestal – não quero dizer que vai nascer uma grande floresta - , com sebes, galerias e corredores ripícolas [filtros biológicos de nutrientes e de diversas substâncias poluentes] que vão estar distribuídos por toda a bacia hidrográfica em sítios estratégicos. O que se pretende com estas plantas é promover a infiltração, a filtração, a fixação, etc. É evidente que esta é a parte mais difícil. Primeiro porque temos de nos munir das plantas necessárias e depois colocá-las em viveiro, sendo certo que elas não crescem de um dia para o outro e, como sabemos, algumas levam anos até poderem ser transferidas para outro local. Portanto, é esta fase que vai demorar mais tempo, embora eu já esteja desligada deste processo.
Tal como o dissemos quando fizemos o projecto, as melhorias não se vão ver de um dia para outro. Estamos a falar de um sistema que levou muitos anos a degradar-se e, portanto, os resultados de recuperação não podem ser imediatos.
Também tenho a certeza absoluta de que o processo de degradação só vai recuperar se as duas medidas (curativas e preventivas) forem tomadas conjuntamente.
DA - Mas as medidas preventivas já estão a ser tomadas?
H.C. - Estão a ser preparadas, mas como disse vão levar alguns anos a implementar.
DA – Neste período de tempo, as lagoas correm o risco de se transformarem em pântanos?
H.C. - Não. Eu penso que com a monitorização que tem sido feita das lagoas e com a atenção que o Governo tem dedicado a esta matéria, através do seu departamento de Recursos Hídricos, não corremos este risco.
DA - Mas reconhece que as medidas essenciais ainda estão por tomar?
H.C. – Todas as medidas são essenciais. As curativas permitiram-nos sustentar o sistema por mais algum tempo e se estas não tivessem sido implementadas então teríamos as lagoas muito pior do que estão.
DA – E quanto às plantas, temos de as importar?
H.C. – Algumas, mas neste aspecto há legislação regional sobre a importação de plantas, que tem de ser respeitada, e isso exige, obviamente, dos serviços florestais um grande investimento e muito trabalho para o qual na altura não estavam preparados. Daí o tempo que temos de esperar e ter alguma paciência para que tudo esteja pronto, para então se começar a ver as novas belezas florestais nas Sete Cidades.
DA – Qual será o impactena paisagem, advindo dessa nova reflorestação?
H.C. – O impacte não será dramático, porque estes corredores e galerias verdes foram pensados para serem colocados estrategicamente, de maneira que não firam a globalidade da paisagem, que nas Sete Cidades é muito aberta. Quando se chega à Vista do Rei a sensação que se tem é a de que conseguimos visualizar toda a cratera. Por isso, se nós fizéssemos uma reflorestação massissa dessa caldeira, ela perdia a sua identidade.
Antes, fizemos um estudo com previsão para percebermos qual o impacte.
Provavelmente ao nível das margens haverá um maior impacte, porque é nesta área que há uma maior necessidade de colocar galerias rípicolas.

Devido ao processo de eutrofização das lagoas micaelenses, a Região dispõe de legislação adaptada…
Helena Calado – Foi um processo que surgiu quando foi adaptada à Região a Lei de Bases do Ordenamento do Território e do Urbanismo e o seu regime jurídico. Nessa altura foi feita uma parceria entre a Universidade dos Açores e o Governo Regional, em que foi feita uma proposta de adaptação do regime que vigorava – e vigora ainda – para as albufeiras classificadas no continente para que esta legislação fosse adaptada nos Açores para planos de desenvolvimento das bacias hidrográficas de lagoas classificadas.
DA - Qual era o grande mérito desta adaptação?
H.C. - Eram planos que tinham como preocupação base a qualidade da água e, por outro lado, não tendo nós albufeiras não ficávamos privados do instrumento de gestão territorial que existe no continente, que na Região não havia por força de não existir essa formação geomorfológica. Essa adaptação foi logo preparada quando foi feita a adaptação do regime jurídico de gestão territorial, sendo que depois foram lançados os concursos públicos e feitos os planos de ordenamento, aprovados e publicados em 2005 em Diário da República e no Jornal Oficial. Neste momento, os planos estão a ser implementados.
A grande oportunidade que houve foi a de fazer no mesmo diploma a classificação da lagoa e a sua regulamentação. Portanto, criou-se uma oportunidade que não existe nas albufeiras, isto é, a albufeira é classificada e depois regulamentada. Aqui não, é tudo feito concomitantemente. Assim, temos as duas lagoas – Furnas e Sete Cidades –classificadas e regulamentadas. Essa foi uma oportunidade criada nos Açores por não haver legislação e que nós [Universidade e Governo] soubemos aproveitar.
DA – Depois da regulamentação, agora o que vai acontecer às lagoas?
H.C. - Nas Sete Cidades, que é o caso que eu conheço melhor, as medidas propostas tinham duas vertentes: preventivas e curativas.
As medidas preventivas levam muito mais tempo a implementar do que as curativas, ou seja, se as medidas curativas relativamente fáceis que recaiam na construção da vala (que já foi feita) e em algum tipo de medidas físicas- embora exijam algum investimento monetário e força de trabalho braçal e de engenharia -, como a apanha das plantas existentes no plano interior de água da lagoa, as outras medidas são muito mais difíceis de concretizar.
DA – Qual é a grande estratégia?
H.C. - Posso dizer que a grande estratégia para a bacia hidrográfica da Lagoa das Sete Cidades é o repovoamento florestal – não quero dizer que vai nascer uma grande floresta - , com sebes, galerias e corredores ripícolas [filtros biológicos de nutrientes e de diversas substâncias poluentes] que vão estar distribuídos por toda a bacia hidrográfica em sítios estratégicos. O que se pretende com estas plantas é promover a infiltração, a filtração, a fixação, etc. É evidente que esta é a parte mais difícil. Primeiro porque temos de nos munir das plantas necessárias e depois colocá-las em viveiro, sendo certo que elas não crescem de um dia para o outro e, como sabemos, algumas levam anos até poderem ser transferidas para outro local. Portanto, é esta fase que vai demorar mais tempo, embora eu já esteja desligada deste processo.
Tal como o dissemos quando fizemos o projecto, as melhorias não se vão ver de um dia para outro. Estamos a falar de um sistema que levou muitos anos a degradar-se e, portanto, os resultados de recuperação não podem ser imediatos.
Também tenho a certeza absoluta de que o processo de degradação só vai recuperar se as duas medidas (curativas e preventivas) forem tomadas conjuntamente.
DA - Mas as medidas preventivas já estão a ser tomadas?
H.C. - Estão a ser preparadas, mas como disse vão levar alguns anos a implementar.
DA – Neste período de tempo, as lagoas correm o risco de se transformarem em pântanos?
H.C. - Não. Eu penso que com a monitorização que tem sido feita das lagoas e com a atenção que o Governo tem dedicado a esta matéria, através do seu departamento de Recursos Hídricos, não corremos este risco.
DA - Mas reconhece que as medidas essenciais ainda estão por tomar?
H.C. – Todas as medidas são essenciais. As curativas permitiram-nos sustentar o sistema por mais algum tempo e se estas não tivessem sido implementadas então teríamos as lagoas muito pior do que estão.
DA – E quanto às plantas, temos de as importar?
H.C. – Algumas, mas neste aspecto há legislação regional sobre a importação de plantas, que tem de ser respeitada, e isso exige, obviamente, dos serviços florestais um grande investimento e muito trabalho para o qual na altura não estavam preparados. Daí o tempo que temos de esperar e ter alguma paciência para que tudo esteja pronto, para então se começar a ver as novas belezas florestais nas Sete Cidades.
DA – Qual será o impactena paisagem, advindo dessa nova reflorestação?
H.C. – O impacte não será dramático, porque estes corredores e galerias verdes foram pensados para serem colocados estrategicamente, de maneira que não firam a globalidade da paisagem, que nas Sete Cidades é muito aberta. Quando se chega à Vista do Rei a sensação que se tem é a de que conseguimos visualizar toda a cratera. Por isso, se nós fizéssemos uma reflorestação massissa dessa caldeira, ela perdia a sua identidade.
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+ Informações:
Fonte: www.da.online.pt
Autor: Nélia Câmara
Data: 2007-10-12 10:42:04
Visualizações: 80
Autor: Nélia Câmara
Data: 2007-10-12 10:42:04
Visualizações: 80
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