Transferência da Corte portuguesa para o Brasil foi ditada pelo Império Britânico
Um livro de um historiador brasileiro afirma que o império britânico foi o principal responsável pela transferência da família real portuguesa para o Brasil, em 1807, contrariando a versão de que as invasões francesas é que provocaram a saída da Corte de Portugal.


A obra, intitulada "Uma Colónia entre Dois Impérios: A Abertura dos Portos Brasileiros (1800-1808)", ontem lançada na Livraria da Biblioteca Nacional (BNP), em Lisboa.

"A transferência da Corte portuguesa foi uma decisão tomada pelos ingleses e apenas para atender os seus interesses económicos. Essa é a explicação estrutural para a partida da família real para o Brasil. A invasão francesa é apenas um dado conjuntural em todo o processo", disse à Agência Lusa o autor, José Jobson de Andrade Arruda, pró-reitor na Universidade do Sagrado Coração (USC), em São Paulo.

Segundo Andrade Arruda, a Inglaterra perdeu o seu principal fornecedor de algodão depois da independência dos Estados Unidos, em 1776, e o Brasil era já, nessa época, um grande produtor dessa matéria-prima, tal como de açúcar.

"Antes mesmo da ameaça das invasões napolónicas, os ingleses já pretendiam retirar o Brasil do controlo português, pois o algodão era fundamental para a indústria inglesa. Nesse contexto, em 1791, os ingleses passaram a estimular o contrabando nas costas brasileiras, acirrando o processo a partir de 1800 e desrespeitando o monopólio português", disse Andrade Arruda, que é douturado em História pela Universidade de São Paulo.

Segundo o historiador, em 1805, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Coroa Britânica, George Canning, projectou a ocupação do Rio de Janeiro - ou, em alternativa, Salvador - numa expedição que contaria com 10 mil homens.

Essa acção militar, contudo, não foi necessária devido ao avanço das tropas de Napoleão sobre a Península Ibérica.

A decisão da transferência da corte foi tomada na reunião da "Convenção Secreta de Londres", assinada a 22 de Outubro de 1807.

"Essa convenção, assinada pelo plenipotenciário português Domingos de Sousa Coutinho e por Canning, delineava o perfil das futuras relações comerciais entre Portugal, Inglaterra e Brasil", afirmou Andrade Arruda.

A convenção, ratificada por D. João VI e pelo rei da Inglaterra George III, estabelecia todos os passos a serem seguidos: a transferência da Corte, a abertura formal dos portos brasileiros e os tratados comerciais de 1810.

"O resultado desse acordo é fundamental, na medida em que o Brasil tornou-se fornecedor directo de algodão à Inglaterra, fortalecendo a indústria têxtil inglesa", disse o historiador.

As outras consequências da convenção foram a aniquilação da indústria portuguesa nascente e o estrangulamento industrial francês, já que o Brasil, através de Portugal, era o fornecedor, até então, de algodão para França.

"Quanto a Portugal, fez todas as concessões possíveis nessa convenção e, entretanto, assegurou a permanência da casa de Bragança no trono português", concluiu.

A pesquisa que deu origem ao livro foi feita no âmbito do Projeto Temático Dimensões do Império Português, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), tendo o historiador utilizado a documentação do Public Record Office, em Inglaterra, para elaborar o estudo.

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Fonte: diário dos açores
Data: 2008-07-31 12:14:22
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