Projecto devolve a esperança de salvação do priolo
Cinco anos e 2,8 milhões de euros depois, um projecto ambiental conseguiu duplicar o número de priolos, uma das aves mais ameaçadas do mundo e que apenas existe na ilha de São Miguel.



"Todos os dados apontam para que o declínio da espécie tenha sido travado. Mas claro que se trata de uma população muito pequena, de poucas centenas de indivíduos de população mundial que só existe" numa zona de São Miguel, disse Joaquim Teodósio, que coordenou o projecto para salvar a espécie.

Apesar do optimismo numa altura em que termina o "LIFE Priolo", promovido pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), Joaquim Teodósio alertou, porém, que em causa está uma ave selvagem, que está sujeita a "flutuações" próprias da natureza.

Directamente, estiveram envolvidos cerca de 200 pessoas, entre parceiros de várias instituições e voluntários, num projecto que permitiu "superar todas as expectativas".

Depois de ser considerada como uma praga para os pomares de laranjeiras no século XIX, a ave sofreu, ao longo de várias décadas, a sua maior ameaça: a destruição do seu habitat, que remeteu a espécie para a classificação de "criticamente ameaçada".

Designado cientificamente por `Pyrrhula murina´, o priolo vive na Serra da Tronqueira e no Pico da Vara, no Leste da maior ilha açoriana, e, por não existir em nenhum outro local no mundo, é considerado como um "valioso elemento da biodiversidade planetária".

Com um peso médio de 30 gramas e cerca de 16 centímetros de comprimento, a ave possui um bico negro e forte, uma cor acinzentada e cauda preta, sendo reconhecido à distância pelo seu pio característico.
"Os dados que temos já mostram que aquele declínio que se vinha a verificar nas últimas dezenas de anos parece ter desaparecido e até se verificou uma recuperação nos últimos anos", salientou o coordenador do "LIFE Priolo".
Indicadores baseados em dados estatísticos, dada a impossibilidade de contagem individual de uma ave que vive em meio selvagem, apontam já para a existência de 500 a 600 priolos na zona do seu habitat natural.
Depois de terem sido contabilizados, na fase inicial do projecto, apenas 300 priolos, Joaquim Teodósio destacou outro indicador recente que indicia que a salvação da espécie pode estar assegurada: pela primeira vez, a ave foi vista em zonas onde não era detectada há dezenas de anos.

Isto depois do esforço feito na recuperação do habitat do priolo, condição essencial para a sua sobrevivência e alimentação, uma vez que plantas como a uva da serra ou azevinho estavam, também, a desaparecer.

"Foi feito um grande investimento na principal mancha de floresta Laurissilva onde o priolo existe", recordou o coordenador do projecto, ao adiantar que, desta forma, foram recuperados mais de 200 hectares que "se podiam perder".

Uma intervenção considerada o principal esforço do projecto tendo em conta que se tratava de zonas de montanha, sem acessos, que obrigou a abrir novos caminhos e a ter "muita gente a trabalhar" no terreno.

O "LIFE Priolo" teve ao seu dispor cerca de 2,8 milhões de euros, comparticipado em 60% pela União Europeia, dinheiro que Joaquim Teodósio recusa que tenha sido "enterrado na serra ou atirado à ribeira".

"Noventa por cento deste montante foi investido nos Açores" em mais de 150 empresas, por exemplo, na compra de material necessário a um projecto de conservação ambiental, explicou.

Por isso, apesar de ter como base a conservação de uma espécie, tratou-se de um projecto com "grande impacto" na vida da população onde se inseriu.
Ao nível dos benefícios indirectos, além da sensibilização das escolas, o "LIFE Priolo" permitiu levar à ilha de São Miguel muitos turistas para ver uma "espécie que apenas vive" na zona do Nordeste, explicou.

O projecto englobou quatro grandes áreas de actuação, que passaram pela monitorização da espécie, sensibilização e educação ambiental das populações, criação de legislação específica e reflorestação de uma parcela do habitat natural com plantas endémicas.

Formalmente o projecto terminou em Outubro, mas a SPEA, que faz parte da organização mundial BirdLife Internacional, já concorreu ao LIFE Plus, para desenvolver acções ao nível dos habitats, partir de Janeiro e por um período de quatro anos.

Um projecto que ultrapassou a barreira da ilha de São Miguel e transformou mesmo o priolo num dos símbolos de uma campanha mundial da BirdLife para evitar a perda da biodiversidade.

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Fonte: DA
Data: 2008-11-04 12:44:29
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