Beco do Jardim António Borges é uma ‘sala de xuto’...
No canto em cima do Beco do Jardim António Borges, à esquerda, e de frente para o jardim com o mesmo nome, há um jardim abandonado e uma casa em ruínas – propriedade particular – que servem de "sala de xuto" para muitos drogados – dependentes de heroína e cocaína – da nossa cidade.


Enquanto esperávamos por dois elementos da Polícia de Segurança Pública de Ponta Delgada que nos acompanharam na visita que fizemos ao interior daquele espaço, verificamos que há ali um entra e sai.

Um casal drogava-se em plena luz do dia, alheio ao que se passava ao seu redor. Outro indivíduo entrou e saiu várias vezes, depois de se ter injectado, deixando o material utilizado – seringa – mesmo perto da entrada. Guardou a colher numa mochila e foi embora como se ali não estivéssemos. Ao olhar para estas pessoas, verificamos logo que algo de anormal se passa.

Ficam com os olhos esbugalhados e coçam-se de tal maneira que até mete impressão. Todos se coçam. Parece uma orquestra afinada. A ideia com que ficamos é que não se importam connosco. Não existimos. Mas se a degradação humana é um drama, o cenário visual com que nos deparámos não é melhor . À entrada, ao lado da ermida [que foi fechada em blocos depois de os larápios terem roubado todos os objectos religiosos] damos logo com um colchão, dezenas de pacotes de preservativos ainda por abrir, dezenas de outros utilizados, um mar de tampas de seringas, seringas, garrafas de água vazias, e muito, mas mesmo muito lixo.

Não dá para descrever o nojo que ali está, só vendo para acreditar, e mesmo assim custa a acreditar, já que pensamos que estamos a entrar numa lixeira a céu aberto, localizada em pleno coração da cidade e perto de um dos mais nobres jardins que a maior cidade dos Açores alberga.

Um nojo...

Mas continuamos o nosso caminho, entre ervas, plantas e árvores – outrora um jardim - , e só vemos o mais do mesmo: preservativos, seringas e invólucros de papel das seringas. Chegamos a uma pequena charca e do alto olhamos para baixo, onde um rol sem fim de material utilizado pelos drogados nos olha inerte, mas que a nossa vista custa a decifrar, já que o que salta à vista são as centenas de tampinhas cor-de-laranja que ali proliferam [são as tampas das seringas] e as centenas de garrafas de água, líquido que serve para os toxicodependentes dissolverem a droga e injectarem-se.

É uma viagem pelo submundo da cidade, onde os drogados escapam ao olhar de quem passa na rua. Descemos umas escadinhas muito estreitas e chegamos ao interior do jardim, que confina com uma casa de habitação, onde um cão negro ladra a toda a força. Foi ali colocado para evitar que os drogados invadissem a casa, como o fizeram muitas vezes, roubando tudo o que encontravam naquele quintal.

Mas nesta zona só damos com material utilizado pelos drogados, até há um cabo para luz dentro de uma espécie de furna, um lugar que se supõe sirva de abrigo em dias frios e/ou chuvosos. De frente há uma casa em ruínas e lá dentro o cenário é o mesmo, e supõe-se que até sirva para abrigar alguém. Há ali um cobertor estendido no chão. Ou seja, não há um recanto daquele espaço que não tenha dedo dos dependentes que o frequentam.

Sempre acompanhados pelos agentes da autoridade – a quem agradecemos a colaboração – saímos daquele jardim/casa em ruínas com a ideia de que há gente a viver sem dignidade, o espaço é um atentado à saúde pública, pois é um poço de bactérias contíguo a habitações, e o cheiro é nauseabundo, que nem o perfume das plantas consegue atenuar. Os moradores, contactados um a um – com algumas excepções – dizem-se fartos daquela situação. Já denunciaram às entidades competentes o que ali se passava, mas dizem que ninguém faz nada porque aquela casa e jardim são propriedade particular, de herdeiros, que não tomam nenhuma posição.

Polícia impotente

A polícia nada pode fazer porque, de acordo com a lei, quem consome não pode ser detido. Portanto, os drogados são livres de se injectarem onde bem lhes apetecer desde que na sua posse tenham apenas a dose diária recomendada, havendo, no entanto, quem defenda que está na hora de os políticos começarem a pensar em criar nesta cidade uma "sala de xuto", com dignidade, tal como acontece nas cidades de Lisboa e Porto. "Os políticos legislam, liberalizaram o consumo mas esqueceram-se de criar espaços para que esta gente se drogue. Como não o fizeram eles próprios descobrem um espaço para se injectarem", diz-nos um cidadão indignado com o que se passa no beco. Uma moradora, que tem netos, diz que os meninos têm de estar sempre em casa, uma vez que naquela zona há seringas por todo o lado "e nunca se sabe se é de alguém infectado".

Como se não bastasse o lixo que deixam na rua – junto à ermida -, lugar que utilizam para se injectarem quando anoitece, ainda intimidam os moradores, despem-se na rua, e destroem-lhes os carros. Um morador contou à nossa reportagem que já perdeu a conta aos pneus furados, aos pneus roubados, e aos vidros partidos que o carro já teve, a que se junta a voz de um outro morador que diz: "Aqui não há nenhum carro que escape. A mim tentaram arrancar-me o tanque da gasolina, mas como não conseguiram apenas cortaram os tubos da gasolina".

Local inseguro

De todos os moradores com quem conversamos há a opinião geral de que aquele beco é inseguro, mas não se pense que são só os carros o alvo dos drogados, que roubam as peças – rádios, jantes e pneus – para venderem.

As próprias pessoas vivem "em sobressalto". Os drogados batem às portas para pedir água, comida e dinheiro e ainda reclamam com o que lhes dão. "Eu dei um euro a um jovem que na minha porta bateu e ainda me disse se isso era dinheiro que se desse a alguém", desabafa uma moradora, que se diz farta da situação e que vive com medo.

Gritos e agressões

Todos os moradores também confessam que o barulho naquela rua é infernal de dia, porque quando escurece há menos gente a procurar aquele espaço. "Eles gritam, agridem-se, discutem pelo preço da droga, dizem palavrões e nós nada podemos fazer, a não ser fechar bem as portas e as janelas para que eles não nos levem o pouco que temos", diz uma moradora, cuja vizinha acrescenta: "Eles batem à porta e fogem e outras vezes, dependendo do seu estado, também dão pontapés. Se estamos a dormir acordamos sobressaltados. Não há sossego. Houve um que passou à minha porta com a seringa pendurada no braço e cheio de sangue".

Contudo, naquela zona não circulam apenas os drogados. Há quem afirme que "homens de fato e gravata, com bons carros, também frequentam o beco. Não ficam aqui para consumir mas achamos que aqui vêm comprar".
Com medo, nenhum morador quer dar o nome à reportagem, embora se tenham identificado para o jornal, mas, para além da droga, afirmam que o seu beco, outrora pacato, também serve para acolher a prostituição, havendo uma moradora que diz não conseguir suportar o barulho que os casais fazem naquele espaço. "São gritos e gemidos. Ninguém consegue dormir", confidencia.

Imprimir Noticia

+ Informações:
Fonte: DA
Data: 2008-11-21 11:15:59
Visualizações: 118

Comentários:
Para comentar precisa de estar registado e identificado.
Sem comentários

Contactos | Publicidade
Adicionar aos Favoritos