“Vi Ponta Delgada crescer e estou a ver a cidade ficar abandonada”
De cobrador a funcionário dos Armazéns Cogumbreiro, José da Costa Franco sonhou sempre vestir bem as pessoas. A oportunidade chegou e não a desperdiçou. Abriu “A Rivieira” nos anos 60 e até hoje tem sido uma referência no pronto-a-vestir masculino e feminino da maior cidade açoriana.

Sofisticado, mas crítico, o conhecido empresário diz que o comércio tradicional tem sido discriminado por quem governo. Quanto a Ponta Delgada, a cidade do seu coração, sente-se triste por estar a ficar desertificada e com muitos edifícios abandonados.
Diário de Negócios – Como nasceu o gosto pela sua actividade?
José Franco - Indo bem ao cerne da questão que me coloca, posso garantir-lhe que o bichinho por este negócio surge em mim ainda por altura da escola primária, em brincadeiras com os meus colegas. Como o meu pai não tinha dinheiro para comprar brinquedos, eu improvisava um balcão com uma madeira sobre dois cestos de vimes. Embrulhava pedras e outras coisas em folhas de papel de jornal e os meus colegas compravam-me. Naquela altura tinha um vizinho que recebia o Diário dos Açores e que depois de o ler me dava para fazer o mesmo.
DN – Deduzo pelas suas palavras que o seu contacto com a imprensa começou bem cedo?
JF – É verdade, começou como já o disse através do seu jornal, que era recebido pelo meu vizinho, o senhor Manuel Padeiro, que era o cantoneiro da minha zona, a Lomba dos Mosteiros.
DN – Mas este seu gosto teve alguma influência?
JF – Talvez pela pequena mercearia que tinha na minha zona. Como eu trabalhava, ajudando o meu pai nas terras e depois de ver o que o senhor da mercearia fazia, pensei que aquela seria uma maneira de eu poder ter um rendimento no futuro, despendendo menos esforço do que aquele que tinha nas terras. A primeira vez que desci a Ponta Delgada tinha nove anos, acompanhei o meu avô, que era comissário de vendas e transaccionava com o extinto grémio da Lavoura. Quando cá cheguei fiquei de imediato encantado com o tamanho das casas e com as suas varandas.
Para um miúdo nascido e criado numa aldeia, a primeira vez que desce à cidade, só tem motivos para se encantar e espantar. Ainda por esta altura venho também, pela primeira vez, às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Depois, passei a dormir alguns dias, em Ponta Delgada, na casa de familiares. É precisamente nessa altura que começo a descobrir e a conhecer melhor a cidade. A partir desta altura a minha estadia vai aumentando gradualmente, e é quando dou conta de que o meu futuro passaria por esta cidade e não pela aldeia que me viu nascer e crescer. Mais tarde, depois de conseguir convencer o meu pai a vir estudar para a cidade, arranjei emprego como forma de subsistência. Com a ajuda do meu avô fiz uma pequena cobrança para o Grémio da Lavoura, que me serviu de cunha para entrar mais tarde nos Armazéns Cogumbreiro.
DN – E que passos se seguiram para o surgimento da Riviera?
JF – A entrada nos armazéns Cogumbreiro foi sem dúvida alguma o passo mais importante, de igual forma, como foi a minha entrada na Escola Industrial de Ponta Delgada.
DN – É nesta escola então que vai beber a sua formação e informação?
JF – Sem dúvida. Foi a minha inspiração, os meus contactos. Mas ainda andei a limpar vidros, mas é como cobrador que aprendi parte das minhas bases.
Fiquei a saber onde viviam as famílias fidalgas, porque entrava nas casas delas para fazer entrega de mercadorias. Fixava nomes de ruas, números de portas e telefones.
Sem dúvida, diria que esta foi, entre outras, as etapas fundamentais para chegar onde cheguei hoje. Estamos nessa altura a viver uma época onde boa parte das famílias açorianas imigram para o estrangeiro, nomeadamente EUA e Canadá. Com estas pessoas vai também um colega meu dos armazéns, deixando o seu lugar vago na secção de venda de algumas peças confeccionadas. Lá, apercebi-me que faltavam muitas peças de vestuário.
Existia blusões, mas não havia casacos, não havia calças que fizesse conjunto e por último perguntava-me porque não havia também fatos. Faltas próprias num país que não fabricava vestuário. Como eu tinha alguns conhecimentos, adquiridos através de conversas com viajantes, importantes meios de transmissão de conhecimentos e que vinham à nossa cidade vender produtos das empresas e fábricas para quem trabalhavam, o negócio onde eu trabalhava foi prosperando. Muitos destes homens acabaram por se casar por cá e constituir família. Estes senhores vinham aos Açores duas vezes por ano.
Contudo, a minha vontade de crescer não parava e a informação que ia tendo levou a que o negócio crescesse rapidamente. Pouco tempo depois de estar naquela secção tornei-me num dos principais empregados da casa. Acabei, também, por descobrir que em Penafiel havia uns senhores que tinham acabado de iniciar os seus negócios com uma fábrica de confecções, a sério. Fiz alguns contactos e, através da firma dos senhores Manuel Matos Amaral e João Roque acabaram por ter acesso a esta representação em S. Miguel. Através destes meus conhecimentos, até porque já éramos amigos, eu fui à fábrica ver o que eles tinham. Eram artigos de média qualidade, eu diria até de distância abismal do que se possa considerar boa qualidade. Foi nesta altura, depois de receber os artigos que tinha ido comprar a Penafiel que fiz a primeira montra, a primeira montra de fatos nos Açores e uma das primeiras do género no país. Isto acontece entre os anos de 1957/58, era eu um jovem com vinte e poucos anos. Tempos depois o meu patrão faleceu e tomou posse dos armazéns, como é óbvio, outra gerência, com a qual não me entendi muito bem. Apercebi-me que o rumo que estava a tomar o negócio não era o melhor. Alertei para o erro que estavam a cometer, até porque o que eu sonhava era tornar os Armazéns Cogumbreiro num Chiado Micaelense. Isto não se verificou, e com muita pena, abandonei a casa.
DN – E quando nasce então o seu próprio negócio?
JF – Nasceu nesta altura, a 16 de Novembro de 1964.
DN – Antes de aqui montar a sua loja este espaço servia de quê?
JF – Era um espaço que servia para consertar motos, uma oficina, propriedade do célebre mestre Octávio.
DN – Como tem decorrido desde então a sua evolução?
JF – Graças a Deus sempre a crescer e a evoluir. Sem modéstias esta casa foi um pontapé de arranque na aquisição do melhor que se fabricava a nível nacional e até internacional. Trabalhamos com confecção holandesa e alemã.
Mais tarde, introduzi o pronto-a-vestir feminino, nos primórdios do seu surgimento. Foi mais fácil introduzir-me nesta secção do que na masculina.
Ainda hoje, existem muitas mais fábricas de vestuário feminino.
DN – Como vê a evolução no mundo da moda?
JF – Com imensa preocupação. Primeiro é preciso ver como se classifica o termo Moda. Existe aquela que é vista pela beleza, e aqui não se entra em grandes pormenores e existe ainda a Moda associada ao pormenor. Os acabamentos de uma peça onde são feitos? Serão franchising? Os senhores do franchising não são fábricas com chaminé. São pessoas que criam um nome, registam-no e mandam fazer as suas peças nos lugares mais estranhos que se possa imaginar, não garantindo, como é óbvio, a qualidade. Para além de encarecerem o artigo, são várias as vias que ganham sobre a mesma peça e a sua produção é duvidosa.
Uma coisa é moda visual outra bem distinta é moda de qualidade e é nesta última que tenho apostado desde sempre.
DN – O que é para si um homem bem vestido?
JF – É aquele homem que tem a confecção perfeita adequada ao seu corpo e estilo. Um homem clássico tem que ter um fato que quando o vestir se sinta perfeitamente bem, ou seja; que tenha as medidas proporcionais ao seu peito e altura. Isto é fundamental. Que tenha boa cava, bom cair de manga, que os forros sejam de qualidade, para quando apanharem água não encolherem. Quando abri a loja criei, de imediato, uma secção de reparações. Passei a trabalhar com vários comprimentos, porque é preciso ter em conta que não somos todos iguais, uns são mais altos de gancho, outros têm as pernas mais longas e o tronco curto e vice-versa. Nós temos confecção de acordo com o cliente que nos entra na loja. É, por isso, que se diz na brincadeira, que o José Franco sabe as medidas de todos, isto de certa forma é verdade. Quando o cliente entra na minha loja, mesmo não sendo eu a atender, digo ao meu funcionário: este senhor tem a medida tal. Isto acontece porque tenho cinquenta anos de experiência na confecção.
DN – O clássico vai ser sempre moda?
JF – Sem dúvida. O clássico não é sempre a mesma coisa e está sempre a evoluir. O homem clássico acompanha a moda. Agora, quando o disparate entra na moda é que deixa de fazer algum sentido.
DN – É errado que um homem clássico com confecção de marca sai muito caro?
JF – È errado. Tudo depende do custo do tecido. O preço é sempre variável entre o tecido e a confecção. Sem dúvida que o artigo mais caro é obrigatoriamente melhor. Aqui na Riviera sempre foi assim, respeitar o preço de origem para se aplicar o preço de venda, uma coisa é inseparável da outra.
DN – Como tem acompanhado a situação económica do nosso país?
JF – Com bastante preocupação. Digo isto porque era muito vulgar na nossa casa, ao mesmo cliente vender-se dois fatos, dois conjuntos da colecção Outono/Inverno e o mesmo na colecção Primavera/Verão e o que se verifica agora é que os mesmos clientes passaram a adquirir apenas um, outros compram ano sim ano não, dependendo da profissão de cada um. O homem quando entra na reforma ou quando deixa de ter obrigatoriedade de andar de casaco e calça ou mesmo usar fato passa a ser um homem mais desportivo. Aqui também se vê o paradoxo que é; as pessoas têm menos em tudo mas no fundo têm simultaneamente mais, porque são capazes de terem menos um fato, mas têm agora um DVD, uma televisão diferente, um telemóvel de última geração. O dinheiro das pessoas passou a ser dividido para muitas mais aquisições. Todos passamos a ficar mais pobres, mas a termos um consumo maior. Na maior parte das aldeias haviam quatro a cinco pessoas detentoras de um carro, hoje existe mais do que um carro por casa.
Nós somos um país que produz muito pouco, consome demais, tem um orçamento na Educação enorme e os resultados não poderiam ser os piores.
DN – A sua empresa tem acompanhado as evoluções tecnológicas?
JF – Sem dúvida. Nos dias que corre era impossível não acompanhar a tecnologia.
DN – Desemprego e falência são duas palavras que o constrange?
JF – Muito. Isto acontece hoje porque se abre com imensa facilidade um estabelecimento sem se fazer estudo de mercado. Nós temos, por exemplo, o caso dos centros comerciais, criados com o objectivo de satisfazerem populações muito superiores à que temos. Falo apenas em números, porque se nascem menos bebés, o consumo baixa também, mas o número de lojas novas aumenta. Não temos capacidade para servir tão pouco público. Isto leva a um aumento do desemprego, e consequentemente, a um menor número de aquisição de postos de trabalho.
DN – Acredita que o Turismo seja uma mais valia para a nossa economia?
JF – Acredito que sim, mas gostaria de acrescentar que esta é como uma faca de dois gumes, porque mais de 90% dos turistas que nos visita não compra no comércio tradicional. No nosso ramo não sentimos grande diferença com os turistas, porque quem nos visita, geralmente, já vem provido daquilo que vai necessitar.
DN – Segundo o seu ponto de vista, a formação é um passo importante para o sucesso de qualquer negócio?
JF – Muito importante em termos gerais, mas cada caso é um caso e cada estabelecimento comercial está voltado para um público específico. Por exemplo, tenho clientes desde que o nosso estabelecimento abriu, e, a prova de satisfação está sem dúvida, tanto no produto como no atendimento que prestamos. Falhas existem e são para ser cometidas e isto não pode de forma alguma ser visto como o mal maior. Cada estabelecimento aberto ao público deve dar formação aos seus funcionários de acordo com aquilo que vende e o tipo de cliente que entra no seu estabelecimento. No nosso caso especifico atendemos um público da média/alta sociedade e os nossos empregados estão preparados para ajudar e saber atender, não quero de forma alguma tirar mérito e valor aos clientes que também temos da classe média/baixa, porque esses quando nos procuram são tão bem atendidos como os outros.
DN – Que medida considera importante de forma a atenuar as dificuldades por que vem passando o comércio tradicional?
JF –O comércio tradicional sente-se discriminado por parte do governo. Por exemplo, nas campanhas eleitorais, quase nunca se ouve os comerciantes. A RTP/Açores nunca fez um programa sobre o comércio tradicional, e existem tantos assuntos a debater, que deveríamos merecer uma atenção diferente. Não falo em meu nome pessoal, mas sim, em termos gerais. Tenho a certeza que somos um pólo importantíssimo de emprego e até mesmo de receita fiscal para o Estado.
Precisamos da parte do quem governa uma atenção diferente.
Outro assunto que aproveito para falar é no facto de Ponta Delgada estar a ficar desertificada. Moram menos pessoas dentro da cidade do que no Bairro das Laranjeiras, por exemplo, e mesmo do que na periferia. Metade dos edifícios da nossa cidade está a desmoronar-se, e a juntar-se a esta onda de abandono estão as térmicas a tomar conta do resto. Isso nota-se de ano para ano. Vi Ponta Delgada crescer e, infelizmente, estou a ver a cidade ficar abandonada. Vivo cá há 58 anos. Conhecia todas as famílias que cá residiam.
Hoje não existe mais do que uma dúzia de famílias na rua onde resido, o que é bastante triste. As grandes cidades europeias têm os seus centros históricos reconstruídos, nós, em relação a estas cidades, somos uma miniatura e estamos em muito pior estado de conservação. É preciso não esquecer e ter sempre presente que uma cidade com maior movimento de pessoas, como a nossa já teve, gera mais negócio.
DA – Marketing e Publicidade é importante na sua empresa?
JF – Evidentemente que sim, mas é um custo adicional aos que já temos mensalmente.
Com a queda do negócio como se tem verificado, este é um assunto a ser muito bem pensado, de forma a conter despesas. Vou fazendo publicidade dentro das minhas possibilidades, mas se o cenário económico não mudar, este vai ter que ser um assunto a ser repensado quanto à sua continuidade.
DN – Se recuasse dez anos no tempo o que é que mudaria?
JF – Gostaria de ter um espaço comercial com o triplo da dimensão e em moldes práticos e mais funcionais, que não obrigasse a depender dos armazéns como hoje dependo. Quanto mais é aberto um estabelecimento comercial mais cativante se torna. É o caso dos espaços dos centros comerciais, aqui a qualidade é o que menos importa, mas o espaço é sem dúvida cativante, com as devidas excepções. Um fatinho feito nos países de Leste tem um impacto diferente numa loja de um centro comercial, o mesmo já não se verifica num espaço no comércio tradicional, onde as montras são mal iluminadas, mal decoradas e com artigos expostos uns sobre os outros.
Defendo que, quanto mais se expõe numa montra menos se vende. No centro histórico de Ponta Delgada existem montras com artigos a monte, é para mim um desgosto tão grande como ver o despovoamento da nossa cidade. Esta situação só mostra a menor preocupação de alguns dos nossos comerciantes.
DN – Nos seus tempos livres o que gosta de fazer?
JF – Gosto de passear pela cidade. Vou tomando notas só para mim daquilo que gostava de ver melhorado. Gostava muito de ver, antes de morrer, a antiga Escola de São João, que fica junto do Teatro Micaelense, sair do local onde está. Lembro-me, ainda dos meus tempos de miúdo, que quando se começou a construir a Avenida se ouvir dizer que aquela escola ia sair dali, mas a situação continua exactamente a mesma meio século mais tarde, só que agora num estado de degradação total, o que só envergonha a nossa cidade. Aquela situação está a atravancar toda uma avenida, e estas querem-se largas e abertas. Para além disso gosto também muito de ler e descansar.

Sofisticado, mas crítico, o conhecido empresário diz que o comércio tradicional tem sido discriminado por quem governo. Quanto a Ponta Delgada, a cidade do seu coração, sente-se triste por estar a ficar desertificada e com muitos edifícios abandonados.
Diário de Negócios – Como nasceu o gosto pela sua actividade?
José Franco - Indo bem ao cerne da questão que me coloca, posso garantir-lhe que o bichinho por este negócio surge em mim ainda por altura da escola primária, em brincadeiras com os meus colegas. Como o meu pai não tinha dinheiro para comprar brinquedos, eu improvisava um balcão com uma madeira sobre dois cestos de vimes. Embrulhava pedras e outras coisas em folhas de papel de jornal e os meus colegas compravam-me. Naquela altura tinha um vizinho que recebia o Diário dos Açores e que depois de o ler me dava para fazer o mesmo.
DN – Deduzo pelas suas palavras que o seu contacto com a imprensa começou bem cedo?
JF – É verdade, começou como já o disse através do seu jornal, que era recebido pelo meu vizinho, o senhor Manuel Padeiro, que era o cantoneiro da minha zona, a Lomba dos Mosteiros.
DN – Mas este seu gosto teve alguma influência?
JF – Talvez pela pequena mercearia que tinha na minha zona. Como eu trabalhava, ajudando o meu pai nas terras e depois de ver o que o senhor da mercearia fazia, pensei que aquela seria uma maneira de eu poder ter um rendimento no futuro, despendendo menos esforço do que aquele que tinha nas terras. A primeira vez que desci a Ponta Delgada tinha nove anos, acompanhei o meu avô, que era comissário de vendas e transaccionava com o extinto grémio da Lavoura. Quando cá cheguei fiquei de imediato encantado com o tamanho das casas e com as suas varandas.
Para um miúdo nascido e criado numa aldeia, a primeira vez que desce à cidade, só tem motivos para se encantar e espantar. Ainda por esta altura venho também, pela primeira vez, às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Depois, passei a dormir alguns dias, em Ponta Delgada, na casa de familiares. É precisamente nessa altura que começo a descobrir e a conhecer melhor a cidade. A partir desta altura a minha estadia vai aumentando gradualmente, e é quando dou conta de que o meu futuro passaria por esta cidade e não pela aldeia que me viu nascer e crescer. Mais tarde, depois de conseguir convencer o meu pai a vir estudar para a cidade, arranjei emprego como forma de subsistência. Com a ajuda do meu avô fiz uma pequena cobrança para o Grémio da Lavoura, que me serviu de cunha para entrar mais tarde nos Armazéns Cogumbreiro.
DN – E que passos se seguiram para o surgimento da Riviera?
JF – A entrada nos armazéns Cogumbreiro foi sem dúvida alguma o passo mais importante, de igual forma, como foi a minha entrada na Escola Industrial de Ponta Delgada.
DN – É nesta escola então que vai beber a sua formação e informação?
JF – Sem dúvida. Foi a minha inspiração, os meus contactos. Mas ainda andei a limpar vidros, mas é como cobrador que aprendi parte das minhas bases.
Fiquei a saber onde viviam as famílias fidalgas, porque entrava nas casas delas para fazer entrega de mercadorias. Fixava nomes de ruas, números de portas e telefones.
Sem dúvida, diria que esta foi, entre outras, as etapas fundamentais para chegar onde cheguei hoje. Estamos nessa altura a viver uma época onde boa parte das famílias açorianas imigram para o estrangeiro, nomeadamente EUA e Canadá. Com estas pessoas vai também um colega meu dos armazéns, deixando o seu lugar vago na secção de venda de algumas peças confeccionadas. Lá, apercebi-me que faltavam muitas peças de vestuário.
Existia blusões, mas não havia casacos, não havia calças que fizesse conjunto e por último perguntava-me porque não havia também fatos. Faltas próprias num país que não fabricava vestuário. Como eu tinha alguns conhecimentos, adquiridos através de conversas com viajantes, importantes meios de transmissão de conhecimentos e que vinham à nossa cidade vender produtos das empresas e fábricas para quem trabalhavam, o negócio onde eu trabalhava foi prosperando. Muitos destes homens acabaram por se casar por cá e constituir família. Estes senhores vinham aos Açores duas vezes por ano.
Contudo, a minha vontade de crescer não parava e a informação que ia tendo levou a que o negócio crescesse rapidamente. Pouco tempo depois de estar naquela secção tornei-me num dos principais empregados da casa. Acabei, também, por descobrir que em Penafiel havia uns senhores que tinham acabado de iniciar os seus negócios com uma fábrica de confecções, a sério. Fiz alguns contactos e, através da firma dos senhores Manuel Matos Amaral e João Roque acabaram por ter acesso a esta representação em S. Miguel. Através destes meus conhecimentos, até porque já éramos amigos, eu fui à fábrica ver o que eles tinham. Eram artigos de média qualidade, eu diria até de distância abismal do que se possa considerar boa qualidade. Foi nesta altura, depois de receber os artigos que tinha ido comprar a Penafiel que fiz a primeira montra, a primeira montra de fatos nos Açores e uma das primeiras do género no país. Isto acontece entre os anos de 1957/58, era eu um jovem com vinte e poucos anos. Tempos depois o meu patrão faleceu e tomou posse dos armazéns, como é óbvio, outra gerência, com a qual não me entendi muito bem. Apercebi-me que o rumo que estava a tomar o negócio não era o melhor. Alertei para o erro que estavam a cometer, até porque o que eu sonhava era tornar os Armazéns Cogumbreiro num Chiado Micaelense. Isto não se verificou, e com muita pena, abandonei a casa.
DN – E quando nasce então o seu próprio negócio?
JF – Nasceu nesta altura, a 16 de Novembro de 1964.
DN – Antes de aqui montar a sua loja este espaço servia de quê?
JF – Era um espaço que servia para consertar motos, uma oficina, propriedade do célebre mestre Octávio.
DN – Como tem decorrido desde então a sua evolução?
JF – Graças a Deus sempre a crescer e a evoluir. Sem modéstias esta casa foi um pontapé de arranque na aquisição do melhor que se fabricava a nível nacional e até internacional. Trabalhamos com confecção holandesa e alemã.
Mais tarde, introduzi o pronto-a-vestir feminino, nos primórdios do seu surgimento. Foi mais fácil introduzir-me nesta secção do que na masculina.
Ainda hoje, existem muitas mais fábricas de vestuário feminino.
DN – Como vê a evolução no mundo da moda?
JF – Com imensa preocupação. Primeiro é preciso ver como se classifica o termo Moda. Existe aquela que é vista pela beleza, e aqui não se entra em grandes pormenores e existe ainda a Moda associada ao pormenor. Os acabamentos de uma peça onde são feitos? Serão franchising? Os senhores do franchising não são fábricas com chaminé. São pessoas que criam um nome, registam-no e mandam fazer as suas peças nos lugares mais estranhos que se possa imaginar, não garantindo, como é óbvio, a qualidade. Para além de encarecerem o artigo, são várias as vias que ganham sobre a mesma peça e a sua produção é duvidosa.
Uma coisa é moda visual outra bem distinta é moda de qualidade e é nesta última que tenho apostado desde sempre.
DN – O que é para si um homem bem vestido?
JF – É aquele homem que tem a confecção perfeita adequada ao seu corpo e estilo. Um homem clássico tem que ter um fato que quando o vestir se sinta perfeitamente bem, ou seja; que tenha as medidas proporcionais ao seu peito e altura. Isto é fundamental. Que tenha boa cava, bom cair de manga, que os forros sejam de qualidade, para quando apanharem água não encolherem. Quando abri a loja criei, de imediato, uma secção de reparações. Passei a trabalhar com vários comprimentos, porque é preciso ter em conta que não somos todos iguais, uns são mais altos de gancho, outros têm as pernas mais longas e o tronco curto e vice-versa. Nós temos confecção de acordo com o cliente que nos entra na loja. É, por isso, que se diz na brincadeira, que o José Franco sabe as medidas de todos, isto de certa forma é verdade. Quando o cliente entra na minha loja, mesmo não sendo eu a atender, digo ao meu funcionário: este senhor tem a medida tal. Isto acontece porque tenho cinquenta anos de experiência na confecção.
DN – O clássico vai ser sempre moda?
JF – Sem dúvida. O clássico não é sempre a mesma coisa e está sempre a evoluir. O homem clássico acompanha a moda. Agora, quando o disparate entra na moda é que deixa de fazer algum sentido.
DN – É errado que um homem clássico com confecção de marca sai muito caro?
JF – È errado. Tudo depende do custo do tecido. O preço é sempre variável entre o tecido e a confecção. Sem dúvida que o artigo mais caro é obrigatoriamente melhor. Aqui na Riviera sempre foi assim, respeitar o preço de origem para se aplicar o preço de venda, uma coisa é inseparável da outra.
DN – Como tem acompanhado a situação económica do nosso país?
JF – Com bastante preocupação. Digo isto porque era muito vulgar na nossa casa, ao mesmo cliente vender-se dois fatos, dois conjuntos da colecção Outono/Inverno e o mesmo na colecção Primavera/Verão e o que se verifica agora é que os mesmos clientes passaram a adquirir apenas um, outros compram ano sim ano não, dependendo da profissão de cada um. O homem quando entra na reforma ou quando deixa de ter obrigatoriedade de andar de casaco e calça ou mesmo usar fato passa a ser um homem mais desportivo. Aqui também se vê o paradoxo que é; as pessoas têm menos em tudo mas no fundo têm simultaneamente mais, porque são capazes de terem menos um fato, mas têm agora um DVD, uma televisão diferente, um telemóvel de última geração. O dinheiro das pessoas passou a ser dividido para muitas mais aquisições. Todos passamos a ficar mais pobres, mas a termos um consumo maior. Na maior parte das aldeias haviam quatro a cinco pessoas detentoras de um carro, hoje existe mais do que um carro por casa.
Nós somos um país que produz muito pouco, consome demais, tem um orçamento na Educação enorme e os resultados não poderiam ser os piores.
DN – A sua empresa tem acompanhado as evoluções tecnológicas?
JF – Sem dúvida. Nos dias que corre era impossível não acompanhar a tecnologia.
DN – Desemprego e falência são duas palavras que o constrange?
JF – Muito. Isto acontece hoje porque se abre com imensa facilidade um estabelecimento sem se fazer estudo de mercado. Nós temos, por exemplo, o caso dos centros comerciais, criados com o objectivo de satisfazerem populações muito superiores à que temos. Falo apenas em números, porque se nascem menos bebés, o consumo baixa também, mas o número de lojas novas aumenta. Não temos capacidade para servir tão pouco público. Isto leva a um aumento do desemprego, e consequentemente, a um menor número de aquisição de postos de trabalho.
DN – Acredita que o Turismo seja uma mais valia para a nossa economia?
JF – Acredito que sim, mas gostaria de acrescentar que esta é como uma faca de dois gumes, porque mais de 90% dos turistas que nos visita não compra no comércio tradicional. No nosso ramo não sentimos grande diferença com os turistas, porque quem nos visita, geralmente, já vem provido daquilo que vai necessitar.
DN – Segundo o seu ponto de vista, a formação é um passo importante para o sucesso de qualquer negócio?
JF – Muito importante em termos gerais, mas cada caso é um caso e cada estabelecimento comercial está voltado para um público específico. Por exemplo, tenho clientes desde que o nosso estabelecimento abriu, e, a prova de satisfação está sem dúvida, tanto no produto como no atendimento que prestamos. Falhas existem e são para ser cometidas e isto não pode de forma alguma ser visto como o mal maior. Cada estabelecimento aberto ao público deve dar formação aos seus funcionários de acordo com aquilo que vende e o tipo de cliente que entra no seu estabelecimento. No nosso caso especifico atendemos um público da média/alta sociedade e os nossos empregados estão preparados para ajudar e saber atender, não quero de forma alguma tirar mérito e valor aos clientes que também temos da classe média/baixa, porque esses quando nos procuram são tão bem atendidos como os outros.
DN – Que medida considera importante de forma a atenuar as dificuldades por que vem passando o comércio tradicional?
JF –O comércio tradicional sente-se discriminado por parte do governo. Por exemplo, nas campanhas eleitorais, quase nunca se ouve os comerciantes. A RTP/Açores nunca fez um programa sobre o comércio tradicional, e existem tantos assuntos a debater, que deveríamos merecer uma atenção diferente. Não falo em meu nome pessoal, mas sim, em termos gerais. Tenho a certeza que somos um pólo importantíssimo de emprego e até mesmo de receita fiscal para o Estado.
Precisamos da parte do quem governa uma atenção diferente.
Outro assunto que aproveito para falar é no facto de Ponta Delgada estar a ficar desertificada. Moram menos pessoas dentro da cidade do que no Bairro das Laranjeiras, por exemplo, e mesmo do que na periferia. Metade dos edifícios da nossa cidade está a desmoronar-se, e a juntar-se a esta onda de abandono estão as térmicas a tomar conta do resto. Isso nota-se de ano para ano. Vi Ponta Delgada crescer e, infelizmente, estou a ver a cidade ficar abandonada. Vivo cá há 58 anos. Conhecia todas as famílias que cá residiam.
Hoje não existe mais do que uma dúzia de famílias na rua onde resido, o que é bastante triste. As grandes cidades europeias têm os seus centros históricos reconstruídos, nós, em relação a estas cidades, somos uma miniatura e estamos em muito pior estado de conservação. É preciso não esquecer e ter sempre presente que uma cidade com maior movimento de pessoas, como a nossa já teve, gera mais negócio.
DA – Marketing e Publicidade é importante na sua empresa?
JF – Evidentemente que sim, mas é um custo adicional aos que já temos mensalmente.
Com a queda do negócio como se tem verificado, este é um assunto a ser muito bem pensado, de forma a conter despesas. Vou fazendo publicidade dentro das minhas possibilidades, mas se o cenário económico não mudar, este vai ter que ser um assunto a ser repensado quanto à sua continuidade.
DN – Se recuasse dez anos no tempo o que é que mudaria?
JF – Gostaria de ter um espaço comercial com o triplo da dimensão e em moldes práticos e mais funcionais, que não obrigasse a depender dos armazéns como hoje dependo. Quanto mais é aberto um estabelecimento comercial mais cativante se torna. É o caso dos espaços dos centros comerciais, aqui a qualidade é o que menos importa, mas o espaço é sem dúvida cativante, com as devidas excepções. Um fatinho feito nos países de Leste tem um impacto diferente numa loja de um centro comercial, o mesmo já não se verifica num espaço no comércio tradicional, onde as montras são mal iluminadas, mal decoradas e com artigos expostos uns sobre os outros.
Defendo que, quanto mais se expõe numa montra menos se vende. No centro histórico de Ponta Delgada existem montras com artigos a monte, é para mim um desgosto tão grande como ver o despovoamento da nossa cidade. Esta situação só mostra a menor preocupação de alguns dos nossos comerciantes.
DN – Nos seus tempos livres o que gosta de fazer?
JF – Gosto de passear pela cidade. Vou tomando notas só para mim daquilo que gostava de ver melhorado. Gostava muito de ver, antes de morrer, a antiga Escola de São João, que fica junto do Teatro Micaelense, sair do local onde está. Lembro-me, ainda dos meus tempos de miúdo, que quando se começou a construir a Avenida se ouvir dizer que aquela escola ia sair dali, mas a situação continua exactamente a mesma meio século mais tarde, só que agora num estado de degradação total, o que só envergonha a nossa cidade. Aquela situação está a atravancar toda uma avenida, e estas querem-se largas e abertas. Para além disso gosto também muito de ler e descansar.
+ Informações:
Fonte: www.da.online.pt
Data: 2005-11-07 10:28:38
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