Neste homem a perspicácia é o que não falta, talvez a vai conseguindo porque sempre que erra ou falha não tem problemas em admiti-lo.
Acredita que o sucesso da nossa economia passa por sermos um arquipélago unido por via marítima, o que facilita, e muito, a vida aos empresários.
Como passatempos, gosta de ler, de jogar e de conversar.
Venha conhecer connosco um pouco da maneira de estar nos negócios e na vida deste nosso empresário
Diário de Negócios – Como nasce a sua empresa?
Martinho Grilo – A Equipo nasce em Fevereiro de 1974, através de um desafio que me foi feito por um amigo meu do Liceu, o Sr. Pavão de Sousa, que continua a ser sócio da empresa. Este meu amigo decidiu fazer uma pequena empresa para a comercialização de alguns produtos industriais. Eu aceitei o desafio, fiquei cá nos Açores e o meu sócio em Lisboa. Na altura eu trabalhava com o meu sogro e achamos que havia espaço comercial para uma empresa de prestação de serviços e equipamentos industriais, que servia na época os municípios, a Fábrica Açoreana de Sabões, a Sinaga, a SAAGA. Foi uma altura óptima, por não haver nenhuma empresa que se dedicasse especificamente ao fornecimento na área do material industrial nas gamas alargadas. Inicialmente as pessoas dedicavam-se quase exclusivamente a apenas uma marca e ficavam especificamente ligadas a ela, lembro-me que na altura havia uma tremenda dificuldade nos transportes e as indústrias não trabalhavam apenas com uma marca e a nossa ideia foi precisamente focalizarmos a nossa acção nas necessidades dos clientes e não em contratos nossos de marca. Passámos a ser um armazém multi-marcas para o fornecimento dos equipamentos industriais. O arranque da nossa empresa é feito na rua do Castilho num espaço alugado ao meu sogro.
DN – Como tem decorrido desde então a sua evolução?
MG – Estamos no mercado umas vezes numa direcção outras vezes noutra. O nosso espírito é adaptarmo-nos ao mercado e não fazer-lhe grandes resistências. Satisfazemos mais as suas necessidades do que lhe fazemos frente. Quero com isto dizer que a evolução da empresa é de oscilação, até porque para eu poder satisfazer estas mesmas necessidades de mercado tenho que ter mão de obra especializada, o que por vezes é difícil adquirir, contratar, sub-contratar pessoas especializadas nas áreas que nos dedicamos. Não é difícil por as pessoas serem incompetentes, mas porque a dimensão do mercado inibe uma empresa pequena de criar grandes estruturas nos recursos humanos e, depois, como se costuma dizer, ficarem à volta da mesa à espera que os negócios apareçam, o que nos leva, de tempos a tempos, a adaptarmos a nossa política aos novos tempos e às circunstâncias dos recursos humanos. Quando estes surgem e se adaptam às possibilidades em termos de honorários de forma compatível com as nossas necessidades, nós admitimos, como é óbvio. Há relativamente pouco tempo desenvolvemos um projecto novo, que já tínhamos há algum tempo em mente, que é a Equipo Electricidade com a formação de um departamento exclusivamente dedicado à Luminotecnia, uma especialidade na área da iluminação e tivemos alguma sorte na contratação da Eng.ª Telma Leitão, uma engenheira bastante conhecida no mercado nacional.
DN – Quem são os maiores clientes da sua empresa?
MG – Eu preferia dizer que todos os nossos clientes são grandes, precisamente por se tratar de clientes específicos. Um instalador industrial tem a sua especialidade e pode este ano comprar cem mas ser um potencial cliente a vir adquirir mil e vice-versa. Portanto nós não temos referências de clientes, pequenos, médios ou grandes, temos sim bons sectores. Na indústria, é o sector da construção civil e as câmaras municipais, que são as nossas grandes áreas, na instalação eléctrica terciária (doméstica), a EDA, por exemplo, é um grande consumidor, porém não é nosso cliente, até porque não tem sido também um dos nossos objectivos, o que não vou passar a explicar, diria que é uma estratégia da nossa empresa.
DN – Que medidas acredita serem necessárias para mudar a situação económica em que se encontra a Região e o País?
MG – Muito honestamente preocupa-nos bastante mais a situação regional e penso que com a Autonomia temos rédeas para controlar alguma coisa, não as grandes matérias, mas as pequenas e que são aquelas que nos tocam no dia a dia e é precisamente nestas que devemos tomar medidas. Penso que os Açores estão no bom caminho em termos governamentais da forma como disciplinam o seu orçamento, aqui não pretendo entrar em grandes pormenores, e discutir se está correcta ou não a forma como ele é gerido, porque o que interessa são os resultados na prática. Em minha opinião uma das grandes medidas e que os Açores ainda não tomaram e isto de há muitos anos já, seria unir as nove ilhas por via marítima. Nós precisamos de reformular a nossa economia, juntando os 250 mil habitantes açorianos, que já são poucos por si só, através do transporte marítimo. Porque de outra forma não conseguiremos vazar excedentes, técnicas de mercado e acções comerciais para as nove ilhas. O modelo actual é impraticável tanto em termos económicos como de tempo.
DN – A sua empresa tem acompanhado as evoluções tecnológicas?
MG – Dentro do possível. Se me perguntar se a nossa informática está preparada para o máximo de potência que é possível, garanto-lhe que não estamos, primeiro, porque as dificuldades são imensas, desde o fornecedor do software regional de forma a garantirmos o suporte pois nem quem o garante, é totalmente eficaz, como esse suporte é extremamente caro, mas dentro do que nos é possível, vamo-nos actualizando. Posso adiantar-lhe sem garantias totais que neste momento por exemplo estamos a estudar e a trabalhar no sentido de abrirmos uma loja on-line. Logo, todo o suporte informático terá de ser compatível com os objectivos, estamos a estudar todo o processo.
DN – Tem então projectos quanto ao alargamento da empresa?
MG – Todos os dias pensamos em algo novo. Umas conseguimos pôr em prática outras não. No que toca a grandes projectos estamos a estudar um na nossa secção de Equipo Electricidade que é a constituição de um armazém e neste momento estudamos e procuramos um espaço que satisfaça as nossas pretensões. No que toca à Equipo Indústria que, como já o frisei, será uma loja on-line. E ainda temos uma outra empresa que é a EquiAmbi, que se dedica aos equipamentos ambientais, e com exclusividade, ao tratamento, recolha e triagem de resíduos industriais para locais apropriados para a sua eliminação e tratamento adequados. E aqui já temos alguns projectos, nomeadamente já fazemos intervenção no papel e plástico, portanto, temos tido alguma evolução e também vamos tendo algumas dificuldades. Nós neste momento estamos em fase final de certificação de operadores para recolha de óleos minerais, ou chamados óleos queimados, das águas oleosas e das lamas. Sem lhe adiantar grandes pormenores posso dizer-lhe que estamos envolvidos num outro grande projecto associado a uma empresa do continente, na construção de um parque de triagem, do género do que já se encontra implantado a nível nacional e que é normal fazer-se. Aqui estamos a ter enormes dificuldades em encontrar um terreno que possa ser licenciado pelas câmaras.
DN – A certificação é uma ambição no seu negócio?
MG – É uma realidade. Neste momento está em fase de certificação a EquiAmbi. Penso que a certificação não pode ser uma bandeira da moda, mas sim uma necessidade de qualquer empresa de forma a estar no mercado. A certificação não pode ser vista apenas pelo facto de ser cara, mas sim como um factor de alteração conceitual das próprias empresas, o que por vezes é extremamente difícil e precisamente porque não traz grandes proveitos, não económicos mas de rentabilidade. A EquiAmbi está neste momento no processo de certificação no ISO 9001 e pensamos que em Março do próximo ano estaremos preparados para sermos auditados, quanto às outras seguir-se-ão de forma faseada.
DN – Acredita que o Turismo será uma mais valia para a economia açoriana?
MG – Espero é que não me venham dizer que para eu ter turismo vou ter que pagar tudo. Agora o turismo como fonte de desenvolvimento da nossa sociedade é um vector extremamente importante e penso que não está a ser bem utilizado. O turismo como sabe implica desenvolvimento cultural, conhecimento de línguas e não apenas quem nos serve à mesa saber por que lado se serve o prato ao cliente, é muito mais do que isso, formação académica, cultura de comunicação entre povos e em minha opinião isto não se ensina em micro-escolas em Ponta Delgada ou Capelas, mas sim, através de convénios e acordos entre associações estrangeiras. Devem os nossos formandos interessados em seguir a área do turismo ir aperfeiçoar-se nos países ou regiões que maior fluxo de turistas envia para as nossas ilhas. Estar no local é uma experiência muito mais enriquecedora e o nosso sucesso a nível turístico passará indiscutivelmente por aqui.
DN – Segundo o seu ponto de vista, a formação é um passo importante para o sucesso de qualquer investimento?
MG – Sem dúvida alguma, porém acredito que ela deverá ser contínua. Nós diariamente nos nossos postos de trabalho estamos a ser formados. Mandar um dos meus funcionários uma ou duas semanas por ano a um curso de formação na Escola da Câmara do Comércio não é segundo o meu ponto de vista formação, mas sim preencher um mapa estatístico. No sector da electricidade, todos os anos vêm duas vezes técnicos de duas nossas representadas, que englobam praticamente noventa por cento do que vendemos e dão formação aos nossos funcionários da área e até a alguns dos nossos clientes interessados, depois de lhes enviarmos os respectivos convites para participarem sobre materiais que estão no mercado e a desenvolver-se. Portanto, estes indivíduos que participam neste encontro estão a ter formação precisamente na sua área.
DN – Desemprego e falência são duas palavras que o assustam?
MG – Vamos ser honestos e pensar: - quem não fica assustado com a falência de um concorrente seu. O que se pode ler duma falência, não tem que ser obrigatoriamente porque o fulano estava mal, mas sim porque não se adaptou aos novos tempos, mas o que na realidade me preocupa mais é antes dos problemas surgirem não se tomarem medidas. Isto sim é que é deveras preocupante. Penso que a nível regional não estão a ser tomadas medidas para as dificuldades que se avizinham. Neste momento devíamos tomar algumas precauções em relação às situações que ciclicamente acontecem e que vão sem dúvida acontecer. Como em tudo na vida há sempre os momentos mais baixos. Quando o ciclo de obras grandes parar, fica o quê? Ficam os ajudantes de padeiro. E continuamos a não nos precavermos para o que vem daí.
DN – Publicidade é importante na sua empresa?
MG – É sem dúvida alguma importante em qualquer empresa. A gestão da mesma é que é um grande drama das empresas açorianas. Sou um pouco adverso a fazer anúncios por fazer, sou mais receptível a gastar dinheiro a trazer técnicos do continente para darem formação. Inclusive comparticipamos em cursos nas Capelas. Mas de vez em quando faço uma ou outra coisa num ou noutro jornal mas nada de específico.
DN – Se recuasse dez anos o que é que não voltaria a repetir em termos empresariais?
MG – Talvez até mudasse algumas coisas nas empresas. Admito que falhei em algumas, alguns destes erros até foram fortes e que ainda hoje estou a pagar por eles. Mudaria principalmente algumas atitudes que tive. Só erra quem faz, e só consegue fazer bem quem um dia errou.
DN – Nos seus tempos livres o que gosta de fazer?
MG – Adoro entreter-me com os meus netos. Gosto de andar um bocadinho e não tenho feito o quanto gostava e precisava, gosto de jogar ao King no Ateneu Comercial o que também não tenho feito muito ultimamente. Gosto de ler e isso faço-o bastante.
Autor: Emanuel Pereira
Data: 2005-12-12 15:24:44
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